julio 04, 2007

não é que eu não goste de trabalhar, veja bem. eu não gosto é do ambiente onde eu estou. não gosto dessa síndrome de poder adquirido na qual as pessoas uma vírgula acima de você na hierarquia trabalhista acham que são a personificação de deus.

apesar disso, algumas situações foram bem válidas. por exemplo, da vez que eu acompanhei a chegada de uma tropa do exército que estava em missão no haiti.

tem o lance dos homens da minha família serem militares [mesmo que aposentados] e isso mexer comigo, tem a emoção das famílias que enviaram seus homens para uma guerra não declarada, tem a questão do preparamento... aprender francês e técnicas de guerrilha urbana para lutar pela paz de um país que não é o seu. por seis meses.

teve cara que não viu a filha nascer. voluntariamente. por acreditar que podia fazer diferença. eu acho isso tudo muito bonito, sabe? mesmo.

uma outra vez, durante as eleições, eu entrevistei a família de um senhor de 98 anos que fazia questão de votar. e aí você pensa "que ridículo, ele não tem nem como votar consciente mais". eu também pensei isso. e não tem mesmo.

mas eu moro no nordeste. e quando se fala em nordeste + política isso imediatamente equivale à oligarquias. e a filha dele disse que há mais de quarenta anos ele vota nos 'alves'. e é isso. a crença cega. a lealdade. que de certa forma admiro porque, nesses tempos em que políticos parecem jogadores de futebol pulando de um partido para o outro e idéias como a verticalização não vingam, é bem difícil entender essa coerência 'creio nisso hoje, crerei nisso daqui 40 anos'. foi deveras interessante, ainda mais para alguém como eu - a típica anuladora do voto.

aí hoje me mandaram pro julgamento de um homicídio cometido em 2004. e como life only gets better o dia do crime foi 21 de setembro. rá! mas então... lá estou eu. 13h. indo com motorista, fotógrafo e laptop pra um município à 35km de natal. aquele sol lazarento. cinco reais dados pelo jornal pra um lanche. e muito ódio no coração porque odeio quando me colocam nessas furadas e minha mãe diz que eu pareço o severino quebra galho do zorra total [o que quer que isso signifique].

chegamos lá, a sessão rolava desde às 8h. o juiz esperava que tudo durasse umas 30 horas. eu só queria ir embora. 15h35 o acusado começa a depor. ele é espanhol e era sócio do morto numa boate aqui em natal. ele e a namorada brasileira estão presos desde 2004. rolam boatos que o crime foi queima de arquivo porque o espanhol devia uma grande quantidade de dinheiro pro morto.

eu olhava aquele tribunal e via: um juiz de 27 anos e cara de 15 que deve ser do tipo "olha mãe, passei na oab"; um conjunto de jurados mezzo putos mezzo entediados; as representantes do ministério público como um bando de "olha mãe, a chapinha e a tinta loiro cinza médio não corroeram meu cérebro" enquanto os representantes da defesa eram aqueles nerds bobões que desde o início do ensino fundamental falavam "painho quer que eu seja advogado".

em algum momento, das quatro horas de depoimento que acompanhei, eu comecei a esperar alguém entrar gritando que tudo era pegadinha do faustão. tava muito circense! e a palhaça era eu. hoje entendi porque a justiça é tão lenta.

caralho! pega no meu processo e balança!

juliana |
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